Ética e Imprensa, de Eugênio Bucci
Publicado em 29.08.2009 na categoria Resenhas
Livros que tratam da ética no jornalismo caracterizam-se, em sua maioria, por delinearem ações idealistas de conduta para profissionais do ramo que muita vez são praticamente impossíveis de serem postas em prática. O jornalista Eugênio Bucci, em Sobre Ética e Imprensa (Companhia das Letras, 2000, 245 páginas), optou por tratar do tema de um modo acessível ao público não-especializado e colocando exemplos práticos que ilustrem claramente como as atitudes éticas podem – ou não – ser aplicadas no dia-a-dia das redações.
O primeiro mérito do autor está em abordar as questões éticas da imprensa de acordo com cada veículo. Diferente de outros livros, Sobe Ética e Imprensa parece fazer questão de lembrar que imprensa não é só jornal impresso diário ou telejornalismo de canais aberto. Bucci diferencia questões e relativiza soluções para jornal, revista semanal, telejornal aberto ou por assinatura, radiojornalismo e até mesmo internet.
Sem deixar nenhum veículo de fora, o livro dá início a seus cinco capítulos com uma espécie de crise existencial – Faz sentido falar de ética na imprensa? Uma resposta negativa tornaria a própria obra sem razão de ser. Bucci não encontra uma resposta definitiva para a pergunta que abre a argumentação, mas deixa claro que, se discutir ética é mesmo uma perda de tempo, os profissionais de comunicação estão deixando para segundo plano o compromisso com o público.
O principal ponto do debate levantado pelo autor é que não adianta os jornalistas ficarem discutindo questões éticas se, no corre-corre do dia-a-dia em busca da melhor informação, acabam passando por cima de princípios para vencer a concorrência. Apesar da louvável idéia de abrir o livro com tal crise existencial e ilustrar bem a discussão com episódios marcantes como a decisão da Rede Globo de enganar o público para não divulgar a campanha das Diretas Já!, Eugênio Bucci acaba se vendo obrigado a tratar de temas batidos já no primeiro capítulo.
O leitor acaba sendo informado, provavelmente pela enésima vez, de que rádios e televisões são concessões públicas, que as faltas éticas não são provocadas apenas por maus profissionais, mas também por atitudes empresariais equivocadas, que os cidadãos tem direito a informação, etc. Embora as informações sejam imprescindíveis, visto que a obra parece ser dedicada ao público em geral, o autor não encontrou um meio de abordá-las de forma diferente às já observadas em outros livros sobre o assunto.
Depois de praticamente se perguntar se vale à pena discutir ética no jornalismo, o texto deixa claro que os jornalistas não gostam – na verdade, segundo o autor, detestam – de tratar do assunto. A perigosa generalização afirma que o repúdio está por se tratar de uma discussão inócua, naquilo que o livro define como síndrome da auto-suficiência ética. Aqui, o livro mais uma vez deixa claro que as atividades do cotidiano acabam por suprimir os preceitos estabelecidos nas teorias dos códigos de conduta. O raciocínio do texto conclui que ética e técnica em jornalismo acabam confundindo-se, afirmando que uma matéria jornalística eticamente correta é, por conseqüência, tecnicamente boa, e vice-versa.
O terceiro tópico levantado por Bucci – Independência e conflito de interesses – trata da antiga e difícil relação entre interesses comerciais e jornalísticos. Trata-se do capítulo no qual o autor traz menos contribuições novas para o debate sobre ética na imprensa. Primeiro, por cair no vício de dizer que os grupos de comunicação são empresas especiais que tem uma responsabilidade social acima do interesse econômico. O pensamento é bastante difundido entre especialistas que já escreveram sobre o tema, porém não constitui uma verdade. As empresas de comunicação, assim como quaisquer outras inseridas no modo de produção capitalista, precisam ter uma contabilidade balanceada, faturar mais do que gasta, dar lucro, enfim, pagar-se para continuar funcionando. Caso contrário, serão fechadas e interromperão o provimento de informações ao público. O segundo deslize do capítulo é apontar como melhor solução para o problema o chamado método igreja-estado, inventado pela revista norte-americana Time e que consiste na segregação entre a área comercial e a editorial dos veículos de comunicação. Não que o método não seja o melhor, mas o autor acaba moendo e remoendo o assunto, repetindo idéias e alongando em quase setenta páginas o que poderia ser explicado em metade disso.
A maior contribuição na questão do conflito de interesses trazida por Sobre Ética e Imprensa foi relegada a último tópico e com pouco destaque – o problema sobre o jornalismo vendedor criado pelos veículos de comunicação disponíveis na internet.
Do conflito de interesses econômicos, o livro passa a tratar sobre vícios e virtudes dos profissionais de imprensa. O tema é abordado a partir dos sete pecados capitais do jornalismo delineados pelo historiador e jornalista Paul Johnson. Distorção deliberada ou inadvertida; culto das falsas imagens; invasão da privacidade; assassinato de reputação; superexploração do sexo; envenenamento das mentes infantis e abuso de poder são os sete pecados esmiuçados por Eugênio Bucci. O autor trata de pegá-los um a um e explicar o que eles querem dizer. A novidade está por ilustrar cada pecado com exemplos práticos, especialmente interessantes por tratarem de erros cometidos pela imprensa brasileira. Assim, o leitor tem acesso a comparações sobre Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, o famoso caso da Escola Base, a predominância da televisão no Brasil, o formato de final feliz do Jornal Nacional da Rede Globo e quejandos. Alguns exemplos também dizem respeito à imprensa internacional – com destaque para a morte da princesa Diana.
Após os vícios, as virtudes. Contra as falhas do jornalismo, Bucci invoca o mesmo Paul Johnson para detalhar os dez mandamentos que devem nortear o trabalho da imprensa. Demonstrando um caráter mais crítico do que de elogios, o autor reserva apenas menos de duas páginas para as dez qualidades que o profissional deveria ter. O capítulo sobre vícios e virtudes – o de maior destaque no livro – é finalizado com três comentários críticos com base nos sete pecados e nos dez mandamentos de Paul Johnson.
Sobre Ética e Imprensa dedica seu último capítulo à imersão da imprensa na chamada indústria cultural. O autor aproveita o esquema de divulgação de filmes capitaneado por Hollywood para tratar das quatro idades da imprensa e, sobretudo, da questão da especialização de repórteres e veículos. O texto parece querer retomar a máxima de que jornalista é o profissional que, sem saber a fundo de nada, escreve sobre tudo.
A obra de Eugênio Bucci termina com uma série de propostas, que o autor faz questão de frisar que não são conselhos, para a melhoria da ética na imprensa. O livro defende que a ética deve ser formada nos bancos universitários e completada no mercado. Fala ainda que as associações e sindicatos devem fiscalizar deslizes éticos e envolver a sociedade no debate sobre o tema. Por serem um tanto quanto utópicas, as propostas finais contrastam um pouco com os exemplos práticos e possíveis expostos durante os cinco capítulos do livro. Nada, no entanto, que tire o brilho desta boa obra sobre jornalismo e ética.











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