Velório de Miguel Arraes vira ponto de encontro político no Recife
Publicado em 14.08.2005 na categoria Reportagens
Matéria originalmente publicada no JC OnLine
O velório do ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes de Alencar, falecido ontem aos 88 anos, teve clima de campanha eleitoral e transformou-se em ponto de encontro das maiores lideranças políticas do Brasil, neste domingo (14), no Palácio do Campo das Princesas. Prestaram condolências à família Arraes o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT); o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB); o deputado federal José Dirceu (PT); o prefeito de São Paulo, José Serra (PSDB); e a senadora Heloísa Helena (P-SOL), entre outros.
O presidente Lula chegou por volta das 9h45, acompanhado dos ministros Dilma Rousseff (Casa Civil), Ciro Gomes (Integração Nacional), Jacques Wagner (Relações Institucionais), Agnelo Queiroz (Esportes) e Sérgio Rezende (Ciência e Tecnologia). Também acompanharam a comitiva presidencial o prefeito do Recife, João Paulo (PT), o controlador geral da União, Waldir Pires, e o ex-ministro e deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB).
“Arraes significa a última voz de uma geração de grandes lideranças que atuaram no Brasil por cerca de 50 anos”, diz Pedro Simon.
Lula foi saudado positivamente pelos populares que se aglomeravam em frente ao palácio, que teve o quarteirão isolado por causa do velório. O presidente foi recebido pelo governador de Pernambuco em exercício, Mendonça Filho (PFL), e pelo deputado federal Eduardo Campos (PSB), neto de Arraes. Lula passou cerca de dez minutos em frente ao caixão, ficando bastante emocionado. Depois, recolheu-se a uma área reservada, onde conversou com a viúva e os dez filhos de Arraes.
“Foi com Miguel Arraes que o povo pôde comprar a primeira televisão, o primeiro rádio de pilha e teve acesso pela primeira vez à luz elétrica”, disse Lula à Madalena Arraes, viúva do ex-governador. O presidente lembrou quando conheceu Arraes, em 1979, na casa da mãe do deputado Eduardo Campos, iniciando uma relação política que jamais foi interrompida.
“Arraes é, na nossa alma militante, a referência da grande liderança, da resistência democrática do Brasil. Isso é algo que o Brasil perde muito”, comenta Heloísa Helena.
Enquanto Lula conversava com os familiares, no lado de fora chegava a comitiva com a cúpula do PSDB, com os adversários políticos do presidente José Serra, Geraldo Alckmin e o senador Sérgio Guerra. Os tucanos foram vaiados pelos mesmos militantes que ovacionaram Lula na chegada e entraram rapidamente para prestar condolências à família Arraes. José Serra e Lula encontraram-se na área interna do palácio, cumprimentaram-se e falaram apenas sobre Miguel Arraes, sem tratar da crise política que abala o PT e o Governo Federal.
O presidente partiu de volta para Brasília cerca de uma hora depois, sem falar com a imprensa. José Serra falou sobre sua admiração por Miguel Arraes e sobre a maneira como foi recebido pelos populares no palácio, mas se recusou a responder perguntas sobre a crise política.
“Encontrei com o presidente, mas não conversei, foi apenas um cumprimento. Eu estive aqui e o Lula também esteve em 1979, quando Arraes voltou e foi feito um grande comício”, disse Serra, que negou ter sido recebido com vaias. “Não foi uma recepção por vaia, foi uma torcida organizada do PT, do que restou do PT”, declarou o prefeito de São Paulo.
“É uma referência que o povo brasileiro perde. Fica seu exemplo para a política brasileira, exemplos que estão sendo cada vez mais necessários”, lembra Geraldo Alckmin.
O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, disse que as vaias eram descabidas e aproveitou para falar sobre Arraes comentando a crise política. “Miguel Arraes tem um papel fundamental no processo democrático, é um grande exemplo de coragem, de coerência e de luta pela justiça social. Tudo o que Brasil está precisando”, declarou Alckmin.
A cúpula do PSDB paulista passou cerca de uma hora no palácio. Após a partida dos tucanos, chegaram separadamente ao velório os senadores Marco Maciel (PFL), Pedro Simon (PMDB), Cristovam Buarque (PT) e Heloísa Helena (P-SOL). Buarque foi o primeiro político a falar com os populares que se aglomeravam em frente ao palácio. Houve um princípio de bate-boca e o senador começou a ser chamado de traidor. O mesmo tratamento foi dado à senadora Heloísa Helena, que também falou com os populares.
“Acho normal que alguns petistas façam isso. Infelizmente, por que eles deviam estar aborrecidos com quem destruiu o PT nesse maldito lamaçal de corrupção e não com as pessoas que já sofreram os açoites e as humilhações inclusive com processo de expulsão”, disse a senadora, que classificou a morte de Arraes como a perda de uma referência.
“Como a coerência acontece muito pouco na política, na hora em que uma figura como Arraes nos deixa, ele chama a atenção para algo que, infelizmente, ainda é raro”, lamenta José Serra.
O senador Pedro Simon foi mais longe e disse que, nesse momento de crise, Arraes era o político que reunia condições ideais para orientar o presidente Lula. “Acho difícil hoje que exista alguém como Arraes, capaz de entrar no palácio, sentar, chamar o Lula e dizer: senta aí, quero falar contigo”, declarou o senador.
Também passaram pelo velório o cantor Caetano Veloso; os deputados federais Raul Jungmann (PPS), Roberto Freire (PPS) e Paulo Rubem Santiago (PT); o primeiro-ministro de Cabo Verde, José Maria Neves; o ex-ministro da Saúde Humberto Costa (PT); o presidente da Infraero, Carlos Wilson Campos (PT); e a ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy (PT), entre outros políticos e autoridades.
VELÓRIO - Alheios aos bastidores da política, as pessoas que iam se despedir do ex-governador Miguel Arraes formavam uma fila na calçada do palácio para ver o caixão do político. Os populares entravam, passavam pelo caixão, cumprimentavam Madalena Arraes e Eduardo Campos e saíam rapidamente. Entre os visitantes, estava uma comitiva com cerca de 200 integrantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), liderados pelo coordenador estadual do movimento, Jaime Amorim.
“Ele foi um dos ídolos da minha juventude. É uma grande perda para o Brasil, para o Nordeste, mas ele deixa uma história de vida muito bonita”, comenta José Dirceu.
A organização evitou tumultos na fila. Alguns admiradores caíam no choro ao ver o corpo de Arraes e falar com Eduardo Campos, que também não controlou a emoção. O único caso mais grave foi de uma senhora que passou mal ao ver Arraes e teve que ser atendida pela equipe do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) que estava de prontidão no local.
Vários dos que passavam pelo caixão depois ficavam do lado de fora, entoando cânticos de apoio a Arraes. Um antigo jingle de campanha foi adaptado e cantado em coro pelos populares: “O povo chora, por aquele que fez mais, Arraes, Arraes, Arraes, lá no céu só vai dar Arraes”. O presidente Lula também recebeu gritos de guerra do tipo “Um, dois, três, Lula outra vez” e “Lula é povo, vamos votar de novo”.
Segundo a Polícia Militar, mais de dez mil pessoas passaram pelo velório até o final da manhã.











Miguel Arraes ter uma historia muito linda parabens.