O Poder das Charges
Publicado em 16.11.2005 na categoria Reportagens
Matéria publicada no extinto site Roda Pernambuco, com Felipe Salgado
Você acredita que um simples desenho pode ter alterado o rumo de uma eleição para governador? Pois isso aconteceu em Pernambuco no ano de 1982.
Roberto Magalhães e Marcos Freire disputavam a primeira eleição direta para governador de Pernambuco desde o Golpe Militar de 1964. A chapa do PDS, que além de Magalhães tinha Gustavo Krause como candidato a vice, bolou um logotipo com a figura de um homem com os braços na posição de campeão acompanhado do slogan Roberto e Krause – Pernambuco em boas mãos.
O cartunista Lailson, então no Diario de Pernambuco, publicou uma charge em que um pintor de paredes, ao reproduzir o logotipo do PDS, transformava o gesto de vitória em uma contundente banana aos eleitores, para desespero dos candidatos caricaturados.
O resultado, segundo Lailson, foi uma grande polêmica. Ninguém mais conseguia ver o logotipo sem enxergar a banana desenhada na charge. O PMDB de Marcos Freire aproveitou e confeccionou panfletos com o desenho, distribuindo-os para os eleitores. Toda a campanha visual do PDS teve de ser reformulada e o logotipo foi rapidamente substituído pelo arco-íris da bandeira de Pernambuco. A panfletagem chegou a um nível em que o candidato Roberto Magalhães ameaçou retirar-se da disputa.
Este é apenas um exemplo da força que as charges possuem junto aos leitores de jornais. O desenho funciona como uma coluna de opinião, geralmente sobre política e economia, na qual a imagem substitui as palavras, alcançando com isso mais imediatismo e abrangência.
“Os fatores políticos são as maiores fontes de idéias que a gente tem, porque esses fatos geralmente dão margem para alguma picardia”, revela Ronaldo Câmara, um dos chargistas do Jornal do Commercio.
Ronaldo conta que, depois de publicar diversas charges com o atual presidente da Infraero, Carlos Wilson, foi apresentado ao político. Wilson garantiu para o desenhista que era melhor ser caricaturado do que ser esquecido pelos chargistas.
“Para o político, às vezes é até melhor quando você está fazendo a charge, mesmo criticando ele, porque ele está aparecendo de certa forma”, declara Ronaldo, evocando um típico caso de falem mal mas falem de mim.
O cartunista Lailson acredita que as charges podem fazer as pessoas se interessarem mais facilmente por política. Ele conta que, certa vez, conheceu um vereador do interior que se tornou político por conta dos desenhos dele.
“Ele me pediu para fazer a caricatura dele para usar na campanha. O motivo de ele ter vindo lá da cidade do interior para Recife me pedir isso é que ele tinha se tornado político por causa das minhas charges. A leitura das minhas charges tinha dado a ele a visão política que ele defendia”.
Reação dos satirizados nem sempre é bem humorada
Nem todos reagem com bom humor às críticas dos chargistas, principalmente as pessoas retratadas nos desenhos. O cartunista do Jornal do Commercio Miguel Falcão, por exemplo, conta que foi ameaçado durante as eleições municipais de 1996.
Era época de um surto de cólera no Recife e alguns candidatos a vereador davam para a população garrafas de água sanitária cujos rótulos eram propaganda de campanha. Miguel publicou uma charge na qual uma dona-de-casa fazia uso da Água Sanitária Ladrão. A reação não foi nada amigável.
“Ligou para o jornal um cidadão me chamando para um duelo, dizendo escolha suas armas e a hora, como se eu fosse um caubói”, conta Miguel, garantindo que relevou as ameaças.
Reações intempestivas eram mais comuns na época da ditadura militar. O cartunista Lailson revela que era ameaçado pelo DOPS, enquanto o desenhista do Diario de Pernambuco Samuca revela que recebeu ameaças por telefone depois de publicar uma charge sobre a morte do general Figueiredo.
“Me ligou um general já sabendo de toda minha ficha – você tem três filhos, você mora não sei aonde, estudou não sei aonde – fazendo aquele terrorismo. Ele falava num tom ameaçador – Você gosta do seu emprego? Eu conheço fulano de tal lá – esse tipo de coisa”, explica Samuca.
Apesar das ameaças, Lailson afirma que o período da ditadura não chegou a exigir mais criatividade dos chargistas. “Era tudo preto e branco. Era muito fácil porque os militares foram muito burros. Colocaram no mesmo saco os inimigos do regime e os corruptos. Você tinha que falar nas entrelinhas, ter uma cumplicidade com o leitor. Como só havia sim e não, era muito fácil a comunicação”, garante o cartunista.
Com a censura da ditadura já adormecida, os chargistas passaram a lutar contra o veto interno dos próprios jornais. Samuca revela que já se utilizou de uma verdadeira tática de guerrilha para conseguir publicar charges na antiga Folha de Pernambuco, em 1989.
“A Folha estava praticamente inviável comercialmente, então eles queriam agradar o governo da época e começaram a censurar umas charges. Tudo que era charge contra o governo eles censuravam. Havia um outro menino querendo fazer charges no meu lugar. Quando a minha era censurada, colocavam a dele”, continua Samuca.
O cartunista então decidiu burlar os editores, entregando o desenho após o fechamento do jornal, quando a charge substituta já estava para ser impressa. “Eu subia já para o fotolito e colocava a charge direto para impressão. Os funcionários trocavam as charges porque já estavam insatisfeitos também. No outro dia saía no jornal: pau no governo. Não deu três charges e eu levei um chute no traseiro”.











dita mili