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Favelas e shoppings: a desigualdade mora ao lado

Publicado em 21.12.2005 na categoria Reportagens

Matéria publicada no extinto site Roda Pernambuco, com José Roberto Santos

O bairro é Boa Viagem. A localização, ao lado do Shopping Center Recife. A casa tem 44 metros quadrados de área. Nela, vivem a professora Leuza Maria Nascimento, o marido e mais sete filhos – todos sustentados por uma renda mensal de R$ 500.

O bairro é Boa Viagem. A localização, dentro do Shopping Center Recife. A loja tem 180 metros quadrados de área. Nela, trabalham Aline Lago e mais duas vendedoras. Em um ambiente climatizado, as três passam o dia vendendo roupas a clientes que, por vezes, gastam de uma só vez tudo o que a família de dona Leuza tem para passar o mês.

Convivendo lado a lado, o maior shopping do Recife e a comunidade que possui o nada simpático nome de Entra a Pulso fazem uma síntese da desigualdade social brasileira.

Na favela, cerca de oito mil pessoas vivem sem saneamento básico, com renda média de um a dois salários mínimos e um cotidiano de violência.

Dentro do shopping, quase nove mil funcionários trabalham em mais de 500 lojas com uma estrutura luxuosa. Limpeza, segurança, organização, tecnologia de ponta. Tudo o que falta na comunidade vizinha existe em abundância no centro de compras. Noventa mil pessoas visitam o shopping a cada dia. Isso significa que, a cada duas semanas, é como se toda a população do Recife entrasse no shopping.

A realidade tão distante em locais tão próximos provoca uma convivência peculiar. O gerente de operações do Shopping Center Recife, Marcus Belarmino, garante que a relação com os vizinhos é das melhores. “Nunca tivemos grandes problemas. Não há uma recomendação especial para eles. O que existe são as normas do shopping: não pode entrar descalço nem sem camisa. O resto é normal”, garante.

Representante da Comissão de Urbanização da Entra a Pulso, a dona-de-casa Vera Lúcia da Silva confirma o bom relacionamento, mas afirma que os moradores da favela são discriminados. “Pra gente ir ao shopping tem que ir alinhada, vestir os meninos. Se não, o pessoal já olha de um jeito diferente”.

A filha de Vera Lúcia, Girlene Pereira, 13 anos, diz que adora ir ao shopping para passear. “Gosto de passear dia de domingo, ir para o Game Station, mas só quando liberam pra gente brincar sem passar cartão”, revela, para logo depois fazer uma ressalva. “Era só eu entrar no Game Station com meus irmãos que os vigias vinham atrás de mim. Isso é um negócio chato, porque eu não ia fazer nada”, lamenta a garota.

Vera Lúcia diz que sempre chama a atenção das crianças em relação ao comportamento dentro do centro de compras. “Eles estão ali brincando, mas os seguranças estão tudo de olho. Um menino mais danado, mas que é filho do rico, pode mexer, pode quebrar, que ninguém faz nada. Já o pobre, de cor, não pode fazer nada”, reclama ela.

Questão da segurança marca vizinhança entre shoppings e favelas

Os shoppings em todo o Brasil são tidos pelas classes média e alta como verdadeiras ilhas de segurança em um cotidiano marcado pela violência. Não é para menos. Somente no Shopping Center Recife são 250 seguranças, auxiliados por 60 câmeras localizadas em pontos estratégicos.

Falar de violência é uma questão delicada tanto com os representantes dos centros de compras quanto com os moradores das comunidades carentes.

O pedreiro José de Assis, morador da Favela Entra a Pulso desde 1951, fala que a violência é a mesma que em outras comunidades. “Em todo lugar tem gente boa e gente ruim. Aqui é a mesma coisa. Não é porque é perto do shopping que vai mudar isso não”.

O gerente Marcus Belarmino diz não se lembrar de casos de violência no Shopping Center Recife causados pelos vizinhos. Um segurança que preferiu não ser identificado, no entanto, conta uma versão diferente.

“Ninguém aqui fala nada, mas a situação aí dentro é complicada. O nome Entra a Pulso já diz tudo. Dentro do shopping a segurança é controlada, mas se acontece alguma coisa lá dentro, a gente não pode fazer nada. Mesmo a polícia não consegue entrar aí de qualquer jeito, tem que antes fazer um estudo, se não…”.

“Não vou dizer que não acontece nada porque acontece. Se eu disser que não acontece é mentira. Aqui mesmo onde a gente está conversando tem gente que já tomou tiro e tudo”, revela o segurança, enquanto observa o movimento na favela a partir do estacionamento do shopping.

“Aí dentro tem gente da pesada, gente que organiza assalto grande, assalto a carro-forte, a banco. Tem segurança que trabalhou aqui e que lá dentro não pode nem ficar na calçada de casa, porque é visado”, finaliza.

Shopping Tacaruna

No Shopping Tacaruna, as favelas vizinhas de Santo Amaro, Santa Terezinha, Chié e outras compõem um cenário de miséria que contrasta com o luxo do centro de compras.

Um taxista que faz ponto ao lado da Favela de Santa Terezinha revela que todos os dias é possível escutar tiros vindo da comunidade vizinha ao shopping. “No dia em que não se escuta tiro aqui é um milagre. Logo quando o shopping foi inaugurado, tinha muito assalto a taxista. Depois, os próprios criminosos vieram dizer que não iam mais mexer com a gente”, conta o taxista.

Os policiais do Posto de Atendimento Comunitário que fica a poucos metros da entrada do Tacaruna contam que a área é uma das mais violentas da cidade. Enquanto fala da segurança no local, o PM mostra a falta de condições de trabalho: não havia luz nem água no posto policial. O telefone estava cortado.

“Antes, quando a via de acesso ao shopping era em frente à favela, os assaltos eram freqüentes. Lá dentro não tem uma semana que não tenha um assassinato”, declara um dos policiais, que pediu para não ter o nome divulgado.

A entrada do Shopping Tacaruna acabou sendo deslocada para a Avenida Agamenon Magalhães, evitando que os freqüentadores do centro de compras passassem com os carros na pista local, em frente à comunidade de Santa Terezinha.

Julio Carneiro, gerente de operações do Tacaruna, desmente que a mudança do local de acesso tenha relação com a ocorrência de crimes. “Na verdade, esses assaltos aconteceram depois da construção da nova entrada. Pessoas desavisadas entravam pelo antigo acesso e sofriam com a violência”.

Shoppings mantêm política da boa vizinhança pelo assistencialismo

A localização lado a lado de favelas e shoppings não é apenas uma coincidência. Recife possui cerca de 600 favelas, que abrigam metade da população da cidade e ocupam 15% do solo urbano.

“Isso é uma realidade dos grandes centros de compras. Quando a gente parte para o projeto de construção de um shopping, precisa-se de uma área grande. Então a maioria dos centros comerciais realmente tem na sua vizinhança comunidades mais necessitadas”, explica Sandra Arruda, gerente de marketing do Shopping Tacaruna.

As empresas procuram manter boas relações com as comunidades ao seu redor. “Os shoppings fazem doações, praticas assistenciais e atendem a algumas solicitações para assim obter uma boa convivência com as comunidades vizinhas, garantindo assim segurança”, comenta o sociólogo Luiz Canuto, coordenador do Departamento de Sociologia da UFPE.

O Shopping Center Recife promove o programa Brigada Jovem, que emprega adolescentes de 15 a 17 anos da favela Entra a Pulso no trabalho de jardinagem. Além disso, a administração costuma fazer doações para os vizinhos pobres.

Já no Tacaruna, o principal projeto social atende pelo nome de Pityboama, uma escola de música para crianças que vivem nas comunidades vizinhas. Trinta crianças que moram perto do shopping estudam teoria musical, flauta doce e percussão.

“Todos os participantes do programa têm que estar na escola e também recebem uma cesta básica. Em cinco anos de projeto, conseguimos reduzir a evasão escolar a zero. Quando os meninos não estão no Pityboama, ou estão na escola ou com a família”, conta Alexandre Ferreira, instrutor do programa.

Moradores

Além das ações institucionais, as comunidades vizinhas também tiram proveito da movimentação econômica e do desenvolvimento urbano gerados pelos shoppings.

Morador da Entra a Pulso desde 1951, o pedreiro José de Assis lembra como era a região antes da construção do Shopping Recife, em 1980. “Tudo isso aqui cresceu depois do shopping. Antes só tinha mato e mangue. Daqui dava para ver o Geraldão”, conta o pedreiro, que diz não freqüentar o shopping. “Só vou lá quando vou comprar alguma coisa. Ir só pra olhar, eu não vou. O que é que o pobre vai ver ali? Isso aí não é pra pobre, porque quando você entra aí, você está pagando o luxo”, afirma.

Se a área ao redor desenvolveu-se com a instalação do shopping, o mesmo não se pode dizer da Favela Entra a Pulso. A dona-de-casa Vera Lúcia da Silva conta que os moradores vivem em barracos sem estrutura e sem saneamento básico. “O que o pessoal faz é aproveitar o esgoto do shopping para despejar dejetos. No começo o shopping não deixava, mas depois deixou, desde que não jogassem lixo nas canaletas para não entupir”, revela.

“Tem muita gente que vê o shopping como bicho-papão, mas eu o vejo como um parceiro. Sempre que precisamos, marcamos uma reunião com a administração e eles nos atendem”, termina Vera Lúcia.

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