Publicado em 16.11.2007 na categoria Contos
Condenado pela data de nascimento, tornei-me cedo o sujeito mais passional do balneário.
Um mero escambo de olhares era suficiente para dar início a uma história que faria Sófocles corar de inveja.
A derradeira tragédia começou quando conheci uma moça com o pretérito mais que perfeito. Cassandra motivou os melhores anos de minha vida e depois, com uma simples palavra, acabou.
Minha veia romântica rompeu-se, expelindo todo o romantismo que em mim circulava. Foi então que cometi o maior de todos os pecados. Racionalizei o amor.
Publicado em 17.05.2007 na categoria Contos
Certo dia, ao acordar, percebi que alguém havia me desconfigurado. Meus olhos de robô foram substituídos pela mais redentora visão de um Salvador Dali embriagado. Naquelas vinte e quatro horas, pude viver sob impulsos, liberto da autocrítica inibitória imposta pelas amarras da hipocrisia social.
E como rasguei o livro de ponto, atirei o celular na lagoa do pomar onde fui comer jabuticabas, disse sem ressalvas para Irene dar fim àquele buço horrendo, publiquei todas as censuras em manchete de duas linhas e letras garrafais.
Satisfiz ainda as vontades do inconsciente coletivo. Acabei com as operadoras de telemarketing, proibi a livre execução monofônica de Pour Elise, tornei os infinitivos inflexíveis e condenei à prisão perpétua tagarelas de todas as platéias.
Os funcionários públicos apressaram-se em tachar-me de exasperado, pitoresco, desatinado. A falta de parafusos e fluidos causou estranheza à repartição. O senhor diretor mandou reinstalar o sistema e, como na mais perfeita narrativa kafkiana, voltei a ser inseto.
Publicado em 8.03.2007 na categoria Contos
Sentado em uma rocha no Porto de Paranaguá, Alejandro Quezada fita o horizonte e observa o oceano pegando fogo. Diante dos olhos inundados do velho marujo, o embate entre chamas e água consumia seu lar, seus amigos, suas lembranças.
Fora apresentado ao Vicuña ainda menino em Valparaíso. Com ele, conheceu quatro continentes, dezessete países e um número infinito de pessoas que sempre se resumia aos vinte companheiros de convés.
Agora, a embarcação soçobrava em meio a ilhas de fogo nascidas da explosão de litros e litros de metanol. As labaredas alimentadas por uma imensa mancha de óleo derrotavam o mar, então já sem forças para sustentar o velho companheiro.
Alejandro decidiu não perder a derradeira viagem do cargueiro. Atirou-se no incêndio e fez questão de morrer afogado.
Publicado em 8.03.2007 na categoria Contos
Sua frustração era tão imensa que chegava a ser frustrante observá-lo. Chamava-se Walter e a única certeza que tinha era que viajava naquela motoneta rumo ao próprio jazigo.
Tentou achar a estrada com destino à Arcádia, no entanto possuía tanta habilidade sobre duas rodas quanto no trato com as mulheres. Zero setenta e cinco graus de astigmatismo na vista, treze de miopia no coração.
A mediocridade que pautou toda sua existência o levou à praia deserta mais lugar comum que o inconsciente coletivo pôde conceber. E foi lá onde Walter esperou uma semana para ler nos jornais o chamado para a sua missa de sétimo dia.
Publicado em 8.03.2007 na categoria Contos
Lírio acordou decidido a fazer um agrado para a namorada naquela manhã de primavera. Medíocre que era, dirigiu-se à floricultura mais próxima para enviar para Hortência um buquê e um bilhete de amor.
Observou a vitrine e optou por um arranjo de orquídeas com pétalas violetas. Contou os dinheiros do bolso e adentrou a loja, pensando em transformar seu namoro bocejo em um mar de rosas.
Posso ajudar? A voz que perfumava seus ouvidos era de uma atendente de sorriso aberto e pele alva como um copo de leite. Ela carregava o nome de Margarida pendurado no seio esquerdo e postava-se para ajudar Lírio a comprar o presente de sua namorada.
Acontece que Margarida era infinitamente mais bela que Hortência. Aliás, ela era mais bonita que todas as flores daquele lugar. E assim Hortência ficou sem seu buquê, sem suas orquídeas e sem seu Lírio.