Entrevista Christiane Edare: “A ponte que faltava entre a sala de aula e o mercado de trabalho”
Publicado em 19.10.2007 na categoria Mercado
Encontrar bons profissionais na área de comunicação tem sido uma tarefa cada vez mais difícil aqui em Pernambuco. Isso não se restringe ao universo on-line, mas também ao mercado de jornalismo, publicidade e áreas afins. Preocupado com isso, bati um papo com uma publicitária local que tem umas boas idéias a respeito do assunto.
Christiane Edare, 30 anos no próximo dia 1º de novembro, é uma publicitária pernambucana com Mestrado em Marketing pela University of Westminster, de Londres. Chris é fã de marketing de guerrilha e outras formas alternativas de se fazer e aprender publicidade. Nesta entrevista, ela fala um pouco sobre o que falta para o mercado publicitário de Pernambuco e do Nordeste.
Fator W - Indo direto ao ponto, o que falta no mercado publicitário local?
Christiane Edare - Falta de foco no que realmente interessa. A maioria das agências não está ligada nas necessidades de mercado de seus clientes. Há muita procura por preciosismo estético e pouca atenção para o que realmente importa: os resultados das campanhas publicitárias.
Fator W - Qual seria o principal motivo para essa falta de foco? A formação dos profissionais que compõem as agências?
Chris - Sim, sem dúvida. A formação dos profissionais da área em Pernambuco é muito complicada. As faculdades se esforçam, porém o mundo acadêmico é bastante diferente do mercado de trabalho.
Fator W - Qual o papel do estágio em unir esses dois mundos?
Chris - O estágio deveria ser o elo entre a academia e o mercado. O que ocorre, no entanto, é que muitas empresas usam o estágio apenas como sinônimo de mão-de-obra barata. Não estão interessadas em ensinar ao estudante. Elas querem ter o trabalho de um profissional pagando o preço de um estudante.
Fator W - Como remediar essa situação?
Chris - Acho que a solução envolve uma mudança de mentalidade, principalmente das agências. Deveria existir um programa no qual os estudantes entrassem em uma agência para aprender. Uma empresa que estivesse interessada em receber aquele estudante e ajudá-lo a crescer profissionalmente, ensinando coisas que a graduação não tem condições de ensinar por ser algo muito do dia-a-dia. Um programa desse tipo seria a ponte que faltava entre a sala de aula e o mercado de trabalho.
Fator W - A idéia é bonita na teoria, mas sabemos que profissionais de comunicação muitas vezes vivem no limite e dificilmente iriam ter tanta atenção com um estudante, não acha?
Chris - Sim, mas eles vivem no limite justamente por não ter uma boa formação ou por estarem cercado de pessoas sem uma boa formação. Se ele fosse bem capacitado e tivesse uma equipe com boa capacitação, não viveria tanto no limite. Pegar um estudante e ensiná-lo o caminho das pedras pode tirar algum tempo no presente e poupar muito tempo no futuro.
Fator W - Dentro de uma agência, a Christiane Edare estaria disposta a cumprir esse papel?
Chris - Com certeza. Durante o mestrado, tomei gosto pela docência. Voltei ao Recife com uma idéia fixa de elaborar um programa que fosse essa ponte entre a sala de aula e o mercado de trabalho. Já apresentei a algumas agências e muito em breve será lançada uma ação forte neste sentido. É só aguardar.
Fator W - Ok, ficamos no aguardo então. Até lá, quem quiser bater um papo com a Christiane Edare pode acessar o perfil dela no Orkut.
Ah agora sim…. estava com saudades de post maiores e com mais conteúdo “relevante”… rs
Comentamos no EBAI que caiu bastante o número de postagem e conteúdo em seus posts, mas sei que trabalho e etc, ocupa muito tempo.
Mas o FatorW continua sendo um grande blog.
Abraço
O ponto de vista dela é o mesmo que tenho, na verdade todas as respostas que ela deu são as mesma que eu daria, pelo jeito o mercado é assim em todo o brasil.
Concordo com as opiniões da Christiane, e acrescentaria mais alguns comentários.
O nosso mercado de comunicação, mais expecificamente de publicidade, está muito prostituido. Existe uma oferta enorme de agências para um número muito pequeno de clientes. O números de novas agências cresce a cada ano, enquanto o número de empresas dispostas a investir em comunicação não tem crescido tanto. Muitas dessas novas agências são criadas por profissionais que não concordam com a metodologia de trabalho das agências em que já trabalharam, ou acabaram de sair da faculdade com algum capital no bolso e alguns bons contatos resolvem abrir seu próprio negócio.
Assim a bolha incha ainda mais. A concorrência faz com que os profissionais esqueçam as metodologias aprendidas na academia e nos MBA’s e partem para satisfazer o cliente, em prazo, preços e até criar do jeito que ele quer (como se o cliente entendesse mais de comunicação do que a agência), senão ele muda de agência.
A concorrência ainda gera uma menor remuneração para as agências, fazendo com que elas enxuguem suas folhas de pagamento, e assim, os profissionais, com boa formação ficam de fora por conta dos baixos salários oferecidos.
A questão do problema do estágio também pode ser justificado pela alta de demanda de estudantes. Estimasse que todo ano são formados 600 publicitários em Pernambuco. E quantos outros ainda estão na faculdade? O MEC deveria gerir melhor a forma como são concedidas as concessões para abertura de cursos.
Para concluir, acredito que o problema do mercado de comunicação seja similar a problema do mercado de tecnologia. Essas profissões ainda não são regulamentadas. Acredito que deveria ser exigido algum registro como o CRM dos médicos, CRECI dos corretores ou o MTB dos jornalistas, para os profissionais de comunicação e tecnologia.
Sei que existem muitos bons profissionais no mercado que nunca nem pensaram em frequentar a faculdade, porque são genialmente talentosos, mas para cada 1 desses quantos outros profissionais bombas estão no mercado? E será que só talento é o suficiente?
Abs
O grande problema do mercado de comunicação de PE está na irregularidade das ofertas e das demandas muito bem regitrada por Gilson. “São muitos estudantes para poucas agências e são muitas agências para poucos clientes”. Não pecisa ser muito inteligente para saber que um mercado estruturado nessa frase que está entre aspas não tem como dar 100% certo. Ou seria 10% certo?
Uma saída para os novos formandos/empreendedores seria, ao invés de investir em uma agência de propaganda - que deve ter umas 10 por m², abrir empresas fornecedoras para as agências. Produtoras de web, stúdios de designer, agências de animação, entre outras empresas fornecedoras têm mercado suficientemente amplao para atender as demandas existentes no nosso mercado.
Certa vez escrevi sobre isso lá no Ideavertising: http://www.ideavertising.com.br/marketing/a-dura-realidade-dos-estudan tes-de-publicidade.html
Abraços!