A genialidade do Ócio Criativo
Publicado em 14.06.2007 na categoria Empreendedorismo, Resenhas
Sempre tive a impressão de que o livro O Ócio Criativo é mais citado do que efetivamente lido, provavelmente por conta do excelente título. Acabo de ler a obra de Domenico de Masi, bem atemporaneamente é verdade, e minha impressão foi confirmada.
Apesar do início difícil e “histórico” demais para o meu gosto, a tese defendida no livro é genial e merece ser lida por todos que acham que há algo errado em sofrer cinco dias por semana para relaxar dois.
Devíamos ter mais sociólogos “nerds” como esse italiano para ver se a sociedade em geral entende o real significado da tecnologia em nossas vidas. Quer um exemplo?
Aquele que é mestre na arte de viver faz pouca distinção entre o seu trabalho e o tempo livre (…) Distingue uma coisa da outra com dificuldade. Almeja, simplesmente, a excelência em qualquer coisa que faça, deixando aos demais a tarefa de decidir se está trabalhando ou se divertindo.
Eu não saberia me definir de melhor forma. A tese de Domenico de Masi é a de que na sociedade chamada de pós-industrial (por falta de um nome melhor) o homem não precisaria mais estar se matando de trabalhar oito a dez horas por dia enfurnado em um escritório.
O avanço da tecnologia permite que a humanidade se liberte de tanto trabalho e aproveite melhor o tempo livre, no que ele chama de economia do ócio. Radical, o autor sugere uma redução drástica na jornada de trabalho, o fim do excesso de procedimentos nas companhias e defende com ardor o trabalho a distância.
As empresas seriam mais criativas, mais produtivas e reduziriam as despesas. Os trabalhadores teriam mais tempo para a vida pessoal, revitalizariam seus relacionamentos com a família, com o bairro, com a cultura, alimentariam a própria criatividade.
A defesa do teletrabalho vem pelas observações do autor de que, mesmo com toda a tecnologia disponível, continuamos trabalhando como operários de uma fábrica de linha de montagem do século XVIII. Temos horário para acordar, chegar ao trabalho, horário para comer, horário para voltar ao trabalho, para sair, para dormir. Temos funções a cumprir, livros de ponto para assinar, procedimentos burocráticos a satisfazer…
A empresa é um sistema que, com freqüência, produz infelicidade e medo. E desperta raiva ver que hoje em dia a infelicidade e o medo poderiam ser eliminados e, em vez disso, continuam a existir sem motivos: não são úteis a produtividade, são nocivos. (…) Assim, quando quero fazer com que uma regra da sociedade industrial sobreviva numa sociedade como a nossa, devo impô-la. Ou com a alienação, ou com a força física, ou ainda com a chantagem psicológica. E para fazer isso é preciso ter um desprezo quase total pela vida pessoal, afetiva e familiar dos empregados.
Domenico de Masi adota o estilo de vida que prega. Montou o escritório de sua própria empresa no andar de baixo da casa onde mora. Trabalha com colaboradores a distância e afirma que, quando dá na telha, a equipe sai para passear pelas ruas de Roma. Não há muita distinção entre o trabalho e o lazer.
O Ócio Criativo e o desenvolvimento web
Exercitamos atividades cada vez mais intelectuais, que implicam cansaço mental. E, para o cansaço mental, a compensação é justamente o ócio. (…) O Ócio Criativo é aquela trabalheira mental que acontece até quando estamos fisicamente parados. Ociar não significa não pensar. Significa não pensar regrar obrigatórias, não ser assediado pelo cronômetro, não obedecer aos percursos da racionalidade e todas aquelas coisas que Ford e Taylor tinham inventado para bitolar o trabalho executivo e torná-lo eficiente.
O trabalho do desenvolvedor web se encaixa em muitos pontos na teste do livro. Desenvolvemos uma atividade intelectual, que pode facilmente ser exercida a distância e lidamos diretamente com novas tecnologias. E o melhor: com um notebook ou um simples pendrive podemos trabalhar praticamente em qualquer lugar.
Hoje o executivo ainda vive trancado dentro da empresa e acaba tendo menos idéias e cada vez mais medo do mundo externo. Quando, no passado, produzia os parafusos que tinha que produzir, a empresa não tinha do que se queixar: menos intensamente vivia, mais obedecia à máquina e mais se mecanizava e produzia. Hoje não é mais assim: mais tempo alguém passa dentro do escritório e menos produtivo é, tem menos idéias.
Outro ponto favorável aos desenvolvedores web é que nosso trabalho muitas vezes mistura-se com nosso tempo livre e com nossas pesquisas, fazendo desaparecerem as fronteiras entre estudo, trabalho e tempo livre. Em teoria, dificilmente precisaríamos dos famigerados consultores que o autor tanto critica.
Muitas empresas, depois de terem selecionados pessoas medíocres, pelo fato de serem dóceis e manobráveis, e depois de terem sufocado todo e qualquer vislumbre de iniciativa com um amontoado de procedimentos e controles, sentem agora a necessidade de revitalizar a criatividade e subemtem essas mesmas criaturas a pseudoformadores, especialistas no assunto.
Finalizando esta já longa resenha, se você cita muito o ócio criativo mas ainda não leu o livro, não perca mais tempo. Pode trazer muito mais produtividade para sua vida do que manuais como os do Stephen Covey. E lembre-se: ociar não é ficar de pernas para o ar. É atividade, criatividade, inovação. É qualidade de vida.

Ahh, essa tese dele é simplesmente genial, genial! :D
apesar de ainda não ter lido o livro (é o próximo na minha wishlist), li/vi várias entrevistas com ele, a citar, uma no Conexão Roberto D’Ávila, excelente por sinal! :D
Nem conhecia o livro, mas me interessou por sua resenha. Vou colocar na lista!
Walmar, foi a primeira vez que parei para ler melhor sobre o que se trata o livro. Gostei da sua resenha e me interessei pelo livro. E já que estou terminando de ler um agora, vou aproveitar sua dica para encomendar este.
Obrigado e um abraço
Ótima resenha Walmar!
Os trechos escolhidos são muito bons e seus comentários também.
PS: Sugiro colocar um estilo diferente para o blockquote…
Abraços!
Minha aversão a livros com cara de auto-ajuda me fez passar longe desse livro, mas seu artigo me convenceu a lê-lo.
Pois é, Rafael. No Submarino por exemplo ele está na categoria Auto-ajuda/Desenvolvimento humano, mas é um livro de Sociologia… talvez esteja em auto-ajuda para vender mais.
Maurício,
Realmente a Trebuchet MS com itálico ficou péssima. Mudei para Verdana. Ainda não está o ideal, depois vou ver um estilo melhor para o blockquote. Valeu a sugestão!
O livro parece mesmo interessante.
Com relação ao blockquote, coloque uma imagem de fundo - como, por exemplo, um par de aspas - pra que fique bem destacado que se trata de uma citação.
Parabéns pelo post!
O autor foi muito feliz na escolha do ´Titulo do livro, o conteúdo tb é ótimo, precisamos desmistificar a idéia de trabalho como realização de vida, outra possibilidade que aumentaria a empregabilidade seria diminuir a carga horária de trabalho, simplesmente seria resolvida a questão do desemprego, pois a oferta dobraria e as pessoas teriam tempo para estudar e melhorar a sua qualidade de vida.
Walmar, boa pedida citar o ócio criativo e comparar com o desenvolvedor de web. Sempre gostei desta teoria dele, que conheci na época da faculdade, quando a sociologia me arrebatou. Mas admito que ele é daqueles autores difíceis de digerir, pela quantidade de informação e cultura que exige do leitor. Seria mais fácil se editado como os blogs do Digestivo Cultural, com os respectivos links! (risos)
Bem… Li o livro, há um bom tempinho. Mas, jamais esqueço de citá-lo ao dialogar com pessoas quando estamos falando da condição humana. E, na verdade ele é realmente um livro de Sociologia. E, fala muito de empresas e da visão golobal como um todo. Apenas o que mais encantou-me, foi ele dizer que as profissões do futuro estão fora das empresas padrões. Cheias de hipocrisias. Tipo empresa não tem coração. Ah, e não tem mesmo, e parece que nem pode né? O Ócio abre outra realidade como criar empresas do futuro que irão gerar empregos para todos. O chamado terceiro setor… Bem… Poderia dizer muito sobre o livro do Domenico. Apenas é bom demais!!!…
Olá Walmar,
Estou fazendo uma pesquisa acadêmica justamente sobre uma metodologia de desenvolvimento Web para equipes geograficamente distantes, e acho que esse livro caiu com uma luva.
Nessa dissertação de mestrado sobre XP, o Vinicius Teles dá uma boa introduzida nessa parte de Trabalhador do Conhecimento e Trabalhador manual, vale a pena a leitura.
Gente trabalho é trabalho. Não deve ser misturado ao adquirir significado de lazer ou família. Leiam o livro de Judith Mair, “Chega de Oba-Oba”, muito interessante. Faz uma crítica ácida sobre os modismos gerenciais. Para ela, a confusão entre vida pessoal e trabalho provocada pela mentalidade americana é a principal causa da onda de estresse mundo afora; a razão de viver das pessoas não está no âmbito do trabalho.
Com certeza, será uma das próximas (bem próximas, pois tenho vários livros para ler) obras que lerei.
Ainda bem que sinto que não estou sozinho. O serviço que faço, é grande parte feito no computador. Se a tecnologia da informática fosse melhor utilizada, não precisaria perder aproximadamente uma hora por dia no trânsito para ir e voltar do trabalho. Quando todos os dados do meu trabalho forem informatizados, não vejo razão para não trabalhar em casa.
Gostei do trabalho Walmar, meus votos
Li a obra para um trabalho academico, infelizmente não havia lido muitos livros até então, justamente por não sobrar muito tempo ou ócio, quando fiquei sabendo do título fui remetido a um paradigma, somente após iniciar a leitura me certifiquei do contrário. Porém, sempre vi o mundo como uma constante evolução capitalista, onde os detentores dos “meios de produção” acabam ditando regras afim de cada vez mais superar as expectativas humanas, atrávez de produtos e ou serviços diversos, assim é óbvio que uma parte da sociedade acaba sendo repelida para o sentido braçal e exigidamente urgente do processo.
Então vejo esta obra de maneira um tanto utópica, fugindo um pouco da realidade dos não agentes desse “ocio”.
penso q o “ócio criativo ” não está ligado a todas as pessoas… eu explico:
A pessoas q fazem de seu “mundinho” (computer ) usando apenas o cerebro horas e horas todos os dias e assim sendo se sentem como se estivessem no # 7 ( trabalho, jogo, estudo ) sem ao menos mexerem seus traseiros da cadeira.
Acredito q o “ócio criativo ” está unicamente relacionado a pessoas com sensibilidade a flor da pele…pessoas q nascem ou desenvolvem seus dons e talentos com o pasar do tempo e através do tempo.