Como seria a escola brasileira de usabilidade?

Publicado em 23.04.2006 na categoria Usabilidade

Quando falamos de usabilidade e ergonomia, destacam-se primordialmente duas escolas ou correntes: a americana e a européia, também chamada de francesa. As duas possuem visões diferentes e o intuito deste artigo é tentar especular quais seriam as características de uma e de outra que mais se adequariam a uma corrente brasileira de usabilidade, caso ela existisse.

A diferença essencial entre as duas correntes é que a escola americana considera o usuário uma das partes integrantes do sistema, enquanto a européia coloca o homem como elemento externo do sistema, ou seja, como alguém que interage com o sistema e que dele não faz parte.

Nos EUA, valorizam-se mais as análises heurísticas. Isso fica muito claro no uso de checklists - como os famosos faça isso, não faça aquilo de Jakob Nielsen - para auferir a facilidade de uso de um sistema.

Já na Europa, como o homem é considerado ator do sistema, a mensuração da usabilidade se dá mais através dos testes de usabilidade. Como o usuário não faz parte do sistema, os especialistas europeus dão mais importância aos testes, para estudar a interação entre homem e sistema.

A “escola brasileira”

Particularmente, tenho a impressão que a escola americana domina o trabalho de usabilidade executado na academia e nas empresas brasileiras. Tentando elocubrar um pouco os motivos disso, acredito que a questão do dinheiro seja um dos fatores determinantes.

Avaliações heurísticas são mais rápidas e baratas, pois o especialista trabalha internamente a partir de uma série de itens a serem verificados. Além disso, cerca de 80% dos problemas de interface podem ser detectados dessa forma, muito embora os 20% restantes sejam geralmente os pontos mais críticos.

Os testes de usabilidade exigem mais tempo e trabalho, logo custam mais. A diferença é que é através dos testes que se revelam os piores e mais danosos problemas de interação com sistemas. Dispensá-los, portanto, pode ser bastante perigoso, mas, no Brasil, por questões orçamentárias, às vezes é inevitável, dependendo do projeto.

Além desse ponto, talvez uma escola verde-e-amarela de usabilidade tivesse que se adaptar ao que se conhece em antropologia como jeitinho brasileiro.

O diretor-executivo da Cartello, Bruno Queiroz, certa vez me disse em conversa que o modo americano de pensar as coisas organizadamente refletia-se diretamente no modo como eles construíam a arquitetura de seus websites e que essa maneira não seria a mais adequada de se fazer no Brasil.

Concordei em parte, pensando principalmente no uso que os brasileiros fizeram do Orkut e do Fotolog.net, às vezes desvirtuando o propósito inicial dos sistemas. Entretanto ainda reluto um pouco em admitir que uma desorganização possa ser mais usável que um sistema organizado pelo modo de pensar de parte dos brasileiros.

Buscando uma base que vá além do achismo, podemos buscar respostas no antropólogo Roberto da Matta - um dos maiores estudiosos do famigerado jeitinho brasileiro. No livro “O que faz o Brasil, Brasil”, Da Matta faz justamente uma comparação do comportamento brasileiro com o norte-americano, contrapondo o modo de pensar dos sobrinhos de Tio Sam com a formação cultural (e não somente educacional) dos brasileiros.

Talvez a escola brasileira de usabilidade tivesse que aprender a mapear esse modelo mental típico dos brasileiros e tentar descobrir - através de pesquisas - se ele realmente se aplica durante a utilização de sistemas de internet para construir heurísticas mais condizentes com a cultura nacional.

Comentários

#5

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    João Vagner

    Acho que o modelo do Orkut é um dos melhores colocados no artigo, seguindo a linha de raciocinio, uma rede de relacionamentos do tipo orkut se tornou talvez o que é hoje (Uma grande bosta), talvez pelo planejamento e proporções que ele tomou.

    Pensar o que, e como o usuário pode fazer com seu sistema, pode proporcionar uma dor de cabecinha menor, do que um banco de dados de pessoas que talvez nem existam mais, como é o orkut, o que era pra ser uma rede de relacionamentos aonde todo mundo poderia conhecer mais um determinado amigo, chegou a explosão de perfis e uma realidade virtual paralela.

    Usuários usando o sistema alem do propósito inicial da criação dele é concerteza o pior erro de usabilidade já visto na http://WWW.

    Abraços

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    s1mone

    Walmar,
    mesmo dentro da realidade brasileira, onde tudo é feito com muito pouco planejamento e com muito pouco investimento, grande parte dos clientes preferem e aceitam o custo dos testes de usabilidade. Conheço vários profissionais que possuem intensa preocupação com a usabilidade e acabam eles mesmos questionando as soluções que desenvolvem. É como se aplicassem as heurísticas como pontos de controle no projeto. Desde modo, contratação de ‘gurus’ é dispensável, barateando de algum modo os projetos. Depois, em pontos mais críticos, os testes de usabilidade entrariam como novos pontos de controle mais abrangentes. Mas esta é uma tendência do mercado Web que percebi de uns três, quatro anos para cá…
    []s

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    Frederick van Amstel

    A escola americana de Usabilidade é muito maior do que a européia.

    Os europeus preferem investir mais na criação do que na análise. Eles possuem tradição na participação de usuários no processo de design, especialmente na Escandinávia. O impacto social da tecnologia para eles é mais relevante do que eficiência e eficácia.

    Não é à toa que dos 7 maiores centros de ensino e pesquisa em Design de Interação, 6 estão na Europa: Ivrea, Umea, Delft, Royal College of Art, Limerick.

    Usabilidade é um assunto que está em voga há tempos, mas vejo poucas empresas convencidas de que vale à pena investir nisso. Os profissionais que se aventuram costumam copiar as estratégias nielsenianas e de outros autores americanos. Há pouca reflexão.

    Eu acho que no Brasil vai pegar a abordagem criativa e por isso estou botando minhas fichas nisso.

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    maikoloki

    Também acho que os profissionais brasileiros, levados pela vontade de deixarem suas interfaces fáceis de usar e para reduzir custos até com re-trabalho, usam análises eurísticas como pontos de controle em projetos. Particularmente nunca participei de um projeto com testes de usabilidade, por isso não tenho como opinar se realmente há uma eficácia nisso ou não, mas acredito que esta escola(européia) seja a mais adequada, pois o usuário realmente não faz parte do sistema, é apenas um elemento que interage com a mesma. A escola americana é mais difundida pelo simples fato de ser mais barata.

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    Elias

    Chamo me ELIAS ALBERTRO

    pretendo vir estudar no Brasil.
    Venho por este meio solitar este site se é possivel receber performa de algumas escolas Brasileira.

    Africa do sul

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Sobre

Walmar Andrade, 26 anos, jornalista com MBA em Planejamento, Gestão e Marketing Digital, é diretor executivo da Wenetus Interactive e escreve neste blog sobre:

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