Sintetize as informações para transmiti-las do melhor modo

Publicado em 13.01.2006 na categoria Conteúdo

No último post desta categoria, falei que menos é mais também em conteúdo, tratando da necessidade do poder de síntese em textos para a internet. Apesar de ter lido muito sobre isso, só realmente entendi como condensar as informações depois que passei mais de dois anos redigindo últimas notícias para os portais Pernambuco.com e JC OnLine. Além de precisar escrever textos sintéticos para não cansar o usuário, não podia demorar muito em cada notícia simplesmente porque outra já estava acontecendo.

Acabei desenvolvendo um poder de resumo bem apurado com a prática. Quando cursei a cadeira de Oficina de Textos na UFPE - em que era preciso escrever contos literários - acabei criando uma prática de criar contos pequenos, tentando contar uma história com muitas informações em poucas linhas, como já fazia com as notícias nos portais. Só que, no lugar de links, era preciso usar metalinguagem, referências e escolher palavras que ganhassem múltiplos significados com a interpretação do leitor. Para um melhor entendimento, vamos a um desses webcontos:

Bela Bela

Isabela tinha somente sete anos de nascida, mas já possuía na língua malícias de mulher feita. Menina outono, subtraía do calendário folhas que sempre caíam no primeiro dia de abril.

Usava apenas a primeira metade do nome para se apresentar. O restante deixava como adjetivo para conquistar. Isa cresceu assim, cultivando ódios sinceros através de amores fingidos.

A cada estação, a bela fornecia biscoito de pão-de-ló em uma freguesia diferente. Namorou Estácio, Rocha, Misael, o General Pedra, Aninha, Ramos, Humbert Humbert, César, outra vez o Estácio, Zé Leiteiro, Esaú e Jacó. Estes últimos, simultaneamente.

Certo equinócio, Isa avistou Rodolfo Augusto. Puxou o espelho para retocar o adultério, lustrou o nariz de madeira e ocultou sob esmalte rubro as unhas repletas de manchas brancas surgidas de seu passado negro.

Pela primeira vez, no entanto, tornou-se agente da passiva em uma oração de conquista. Fitando o desejado, a bela inspirou fundo para declarar seu inédito amor sincero. Sua boca, contudo, não sabia
pronunciar verdades.

Explicando…

Não é ideal explicar um texto literário, mas vou fazer isso para que o post atinja seu objetivo - mostrar como em poucas palavras é possível transmitir centenas de informações.

A primeira frase do conto é uma referência a uma música de Noel Rosa, respondida por Caetano Veloso, que fala que toda mulher é expert em mentiras. E mentira é o tom de todo o texto, apesar de nunca ser citada em palavra. As malícias da língua, além de representar a mentira, também podem ser entendidas como técnicas de beijo de mulheres mais experientes.

Outono é usada como sinônimo de decadência, que aliás é a origem da palavra que ilustra a cadência das folhas nesta estação do ano. As folhas caindo, não das árvores, mas do calendário da menina, que sempre marcava o dia da mentira.

Chamando-se Isa, usava a beleza física para conquistar as pessoas. Biscoito de pão-de-ló também é conhecido popularmente como “mentira”. Ela fornecia a diversas freguesias - incluindo mulheres, gêmeos e o Humbert Humbert que criou a expressão Lolita no clássico de Vladimir Nabokov -, repetindo a Tragédia Brasileira, de Manuel Bandeira, que também inspira o nome do conto.

Como em cada estação ela trocava de parceiro e tinha sete anos no começo do conto, no equinócio (mudança de estação) em que ela conheceu Rodolfo Augusto já tinha uns dez anos. Boa hora para uma tragédia mexicana, como sugere o nome do protagonista masculino.

A bela tentou usar as armas de sempre. Retocar o adultério no espelho é uma referência a um hai-kai de Millôr Fernandes. Nariz de madeira, a Pinóquio. O jogo de cores mostra o vermelho (pecado) cobrindo as manchas brancas (mentiras) do passado negro (traições).

Tornar-se agente da passiva indica que ela não estava mais no comando da situação, havia sido flechada de verdade. Como não sabia falar verdades, somente mentiras, não conseguiu declarar-se ao amado.

E o que isso tem a ver com web?

A necessidade de síntese. Perceba como a mesma informação pode ser transmitida com menos linhas. Veja como a primeira versão foi mais agradável de ler. Talvez você tenha até desistido de ler a segunda palavra por palavra, pois o texto já estava ficando cansativo.

Não adianta querer esgotar todas as informações em um texto na internet. Poucos usuários vão ler tudo. O melhor é condensar as informações principais e oferecer as mais detalhadas em camadas mais profundas do site, onde somente os realmente interessados irão. Aplicando isso, os sites conseguirão transmitir melhor as informações, agradando tanto aos proprietários quanto aos usuários do projeto.

Comentários

#1

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    Frederick van Amstel

    Parabéns pela fabulosa capacidade de condensação e pelo ardiloso palimpsesto.

    Alternativamente, você poderia ter oferecido as explicações em hyperlinks embutidos no próprio corpo do texto de exemplo. Se abrisse numa janela popup a explicação, seria perfeito para esse caso.

    No caso de literatura não há limites para a condensação, mas no caso de notícias, você sabe bem que isso existe. Podemos escrever telegraficamente, usando palavras menos comuns que falam o mesmo que explicações de várias palavras, porém, mais do que ler rápidamente, o usuário não quer parar para reler um trecho só porque não entendeu.

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Walmar Andrade, 25 anos, jornalista com MBA em Planejamento, Gestão e Marketing Digital, é diretor executivo da Wenetus Interactive e escreve neste blog sobre:

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